Os atropelamentos em rodovias representam uma das ameaças mais severas à sobrevivência da anta brasileira (Tapirus terrestris) e um grave risco à segurança dos motoristas. Para enfrentar esse cenário, a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB/IPÊ) uniu o monitoramento científico à atuação jurídica para pressionar o poder público por soluções eficientes no Mato Grosso do Sul, com foco especial na rodovia estadual MS-040.
Principais resultados
- Trágico histórico: entre abril de 2013 e novembro de 2018, foram registrados 470 colisões veiculares com antas em 32 rodovias do estado. No mesmo período, essas colisões feriram 55 pessoas e causaram 23 mortes humanas.
- Rodovias mais letais: as rodovias BR-267, BR-262 e a MS-040 foram identificadas como as campeãs em acidentes. Na recém-inaugurada MS-040, foram contabilizadas 127 antas mortas em apenas 44 meses de monitoramento.
- Potencial subterrâneo: um diagnóstico técnico na MS-040 mapeou 47 estruturas preexistentes (como passagens de gado e galerias de drenagem) e pontes com potencial para serem adaptadas ecologicamente.
- Uso confirmado: o monitoramento com armadilhas fotográficas em 15 dessas passagens registrou 1.675 eventos envolvendo antas, provando que os animais tentam cruzar a rodovia por baixo do asfalto.
- Sinalização ineficaz: o ensaio reforça que a simples instalação de placas de advertência tradicionais têm baixíssima eficiência, pois não altera o comportamento dos motoristas e não impede o acesso da fauna à pista.
O próximo passo
Embora os animais utilizem os túneis existentes, os índices de atropelamento continuam elevados nos mesmos trechos. Por isso, a medida mais urgente e de melhor custo-benefício é a instalação de cercas direcionadoras de 500 metros em cada lado das estruturas para guiar os animais com segurança até as entradas subterrâneas.
Devido à morosidade das agências governamentais (AGESUL e IMASUL) em implementar o plano de mitigação proposto pelos pesquisadores, o Ministério Público Estadual moveu uma Ação Civil Pública. A ação exige uma indenização de R$ 10 milhões pelos danos à biodiversidade e pelas vidas humanas perdidas, estabelecendo um precedente histórico sobre a responsabilidade legal dos órgãos de infraestrutura na proteção da fauna silvestre.
MEDICI, Emília Patrícia; ABRA, Fernanda Delborgo. Lições aprendidas na conservação da anta brasileira e os desafios para mitigar uma de suas ameaças mais graves: o atropelamento em rodovias. Boletim da Sociedade Brasileira de Mastozoologia, v. 85, p. 152-160, 2019.