A expansão da malha rodoviária em regiões tropicais impulsiona o desenvolvimento econômico, mas impõe um desafio ambiental severo: a fragmentação de habitats e o aumento das colisões veiculares com fauna silvestre. No Cerrado e no Pantanal brasileiro, esse problema afeta de forma direta tanto a conservação da biodiversidade quanto a segurança dos motoristas. Animais de grande porte, como a anta-brasileira (Tapirus terrestris), podem pesar até 300 kg. Quando ocorrem colisões com animais desse tamanho, as consequências costumam ser trágicas, resultando frequentemente em perdas humanas, animais e prejuízos materiais elevados.
As colisões com animais de grande porte nas estradas ameaçam tanto a biodiversidade como a segurança dos motoristas. Para avaliar soluções viáveis e de baixo custo, um estudo monitorou 12 passagens subterrâneas preexistentes (galerias de drenagem, passagens de gado e uma ponte) ao longo de um trecho crítico de 50 km da rodovia MS-040, em Mato Grosso do Sul. A monitorização estendeu-se por 3.682 noites com o auxílio de armadilhas fotográficas.
Principais resultados
- Elevada utilização: foram registradas 20 espécies de mamíferos de médio e grande porte, num total de 4.212 eventos de travessia.
- Antas seguras: a anta-brasileira (Tapirus terrestris) foi a espécie mais frequente, com 1.154 registros. Foram identificados 28 indivíduos distintos (incluindo casais reprodutivos e fêmeas com crias), acumulando mais de 180 toneladas de biomassa que cruzaram a estrada em total segurança por baixo do asfalto.
- Preferências de estrutura: os mamíferos estritamente terrestres demonstraram preferência pelas passagens de gado, enquanto as espécies semiaquáticas utilizaram exclusivamente as galerias de drenagem.
- Horários opostos: o fluxo de fauna concentrou-se nos períodos noturno e crepuscular, coincidindo perfeitamente com os horários de menor tráfego de veículos.
O próximo passo
Embora as passagens subterrâneas garantam a conectividade do habitat, o estudo registrou a morte de 21 antas atropeladas na mesma rodovia durante o período da pesquisa. Isto demonstra que as estruturas isoladas não são suficientes: é urgente instalar cercas direcionadoras (vedações) nas margens da pista para impedir o acesso dos animais ao pavimento e guiá-los até às entradas dos túneis.
Para economias em desenvolvimento, a estratégia recomendada é o retrofitting, uma adaptação ecológica de infraestruturas civis já existentes, considerada uma solução altamente econômica e eficiente para proteger vidas humanas e preservar a fauna silvestre.
Fernanda Delborgo Abra, Ariel da Costa Canena, Guilherme Siniciato Terra Garbino, Emília Patrícia Medici, Use of unfenced highway underpasses by lowland tapirs and other medium and large mammals in central-western Brazil, Perspectives in Ecology and Conservation, Volume 18, Issue 4, 2020, Pages 247-256, ISSN 2530-0644, https://doi.org/10.1016/j.pecon.2020.10.006.